Netos mantêm vivo legado genético do plantel iniciado pelo primeiro selecionador de Mangalarga Marchador de São Paulo.
Informações genéticas provenientes de uma competente seleção animal de quase cinqüenta anos diferenciam os melhores eqüinocultores, em qualquer parte do mundo. No Brasil, muito mais, porque, basicamente, é recente a condução profissional da atividade. Esta é a habilitação do plantel de Mangalarga Marchador da fazenda Santa Terezinha II, da família Strang, uma pioneira da raça em terras paulistas. Para se ter uma idéia da fusão histórica entre criador e este cavalo no Estado, a filiação do patriarca Donald Wilfred Strang na associação Brasileira dos Criadores de Mangalarga Marchador é de número 44, datada de 1956, apenas sete anos após a fundação da entidade.
Este verdadeiro tesouro está escondido em Lavínia, município paulista do noroeste do Estado, no final de uma estrada em terra de 30 Km, a partir do Km 577 da Rodovia Marechal Rondon, a 75 Km de Araçatuba. Os atuais proprietários são Celina Brandão Barbosa e os seis filhos de Eduardo Antunes Strang, seu marido (já falecido) , que lhes deixou os animais como herança, forma pela qual também os recebeu de seu pai Donald, responsável pelo inicio do plantel, trabalho que lhe conferiu a condição de primeiro criador paulista a registrar animais dessa raça na Associação Brasileira dos Criadores de Mangalarga Marchador, Araçatuba Sereno e Araçatuba Cassino foram registrados em livro aberto em 1963.
Atualmente, alojam-se na fazenda 60 animais registrados, dos quais 12 matrizes, servidas por Araçatuba Gamão, nascido em 1987, um filho de Namorado de Santa Lúcia em Araçatuba Bartira, égua superpremiada na década de 80 em exposições regionais. Gamão é de pelagem castanha quase tapada, a preferida de Donald Strang, características que Eduardo também continuou mantendo, juntamente com a marcha batida que Donald sempre preferiu à picada. Dois potros são reserva especial e grandes esperanças da tropa: Araçatuba Baluarte e Araçatuba Brilhante, ambos com dois anos e meio.
O prefixo Araçatuba tem tradição na raça. Donald Strang o iniciou atraído pelo que viu na Fazenda Abaíba, de Eurico Junqueira, em Leopoldina (MG), onde foi trabalhar logo que terminou seus estudos em Viçosa. Os primeiros animais foram escolhidos em diferentes origens, com a ajuda do criador Moacir Rezende, de Três Corações, e viram de plantéis famosos, como os da Fazenda Anghaí, Araújo e Providência. Entre os padreadores iniciais do plantel destacaram-se Itamarati Cao-Cao, Itamarati Leblon e Anghaí Bônus, além de Cassino Fanfarrão, ambos com o prefixo Araçatuba.
Donald Strang tinha facilitado seu trabalho de descobrir bons animais: como comprador de gado para o Frigorífico Swift, primeiramente, depois como diretor dessa empresa, era conhecido no meio, tinha fama de sério e, acima de tudo, era gentil e atencioso para com todos, cativando os que cruzavam seu caminho. Na seleção que impôs à sua tropa, também seguida pelo filho Eduardo, ele sempre buscou exemplares de boa índole, com vocação para o trabalho e disposição para a lida no campo.
Uma marca da tropa, vinda daqueles tempos, é o porte médio dos animais, "para Ter boa recuperação após jornadas exaustivas de trabalho, menor exigência alimentar e que não requeressem outra fonte de alimentação além do capim", como destacam hoje os donos da Santa Terezinha II. Tudo sempre coroado pelo conforto oferecido ao cavaleiro.
Qualidade e Simplicidade
Se a qualificação da tropa é a marca de agora, a simplicidade no manejo sempre foi a tônica do trabalho. Hoje, dois irmãos estão diretamente à frente do plantel: Henrique, estudante de zootecnia, e Daniel, já formado nessa área.
Henrique é que da mais tempo à fazenda, cabendo a Daniel responder pela área zootécnica e melhoramento genético, tanto do Marchador quanto do Nelore, que a Santa Terezinha II também cria com igual desvelo e tradição.
Um terceiro irmão, Marcelo, vive nos EUA há 14 anos, onde é ferrador e casqueador de cavalos em Gainesville, no Texas, cidadezinha no norte do Estado, entre rodovias 35 e 75, o coração da criação do Quarto de Milha nesse país . Marcelo - que teve de acrescentar o nome Jake ao que recebeu no batismo, de tanto que o chamam assim no Texas - acompanha diariamente via Internet o que ocorre na fazenda e nela aplica todas as sobras de sua atividade. E diz que continuará fazendo isso até que possa voltar definitivamente para o Brasil.
Doma facilitada
É esse trio que, em nome dos irmãos e da mãe, decide os rumos da criação, tanto a de cavalos quanto a de bovinos.
Para Marcelo, Henrique e Daniel, não há o que mudar no rumo fixado desde o início para a criação. Os potros vivem em pastos de braquiária e colonião, convivendo com o Nelore, cuja docilidade também é característica marcante da seleção. Todos são cabresteados na desmama, familiarizando-se com as pessoas desde cedo. Em cada lote de bovinos, sempre há um grupo de potros e potras, participando do manejo e das idas e vindas ao curral. Assim, a doma é facilitada, sendo feita no método racional, com capricho, sem traumas para os animais.
Outra preocupação na fazenda é pôr as fêmeas na lida aos três anos de idade, reservando-as para a primeira cobertura apenas com 4,5 anos. Explica Henrique que esse cuidado tem a dupla vantagem de manter os animais bem domados e sempre aptos para a lida, na ocorrência, por exemplo, de alguma falha na concepção. Como no início da criação, a fazenda quer continuar produzir animais para a lida, que encontram bom mercado na região e para fazendas sul-mato-grossenses que vão a Lavínia em busca dos tourinhos com o ferro Strang. Mas a idéia é também voltar a participar de exposições e leilões da raça, e não mais apenas regionalmente como no tempo do velho Donald.
Todos os animais são registrados e elogiados por quem conhece, como Mário de Castro Andrade, um dos mais reputados técnicos da Associação Brasileira e por muitos anos responsável pelo registro de animais da raça, que, em visita à Santa Terezinha II, ressaltou o trabalho que vem sendo feito. Outro que fala bem dos animais do Strang é Ricardo Casiuch, que levantou recentemente a história do plantel para a revista oficial da entidade e lembrou que o reprodutor nº 1 do registro do livro de elite da ABCCMM pertence a A F.Emir, um macho filho de Araçatuba Carioca.
Para manter esse prestígio, os irmãos Marcelo e Daniel não hesitam em também levar éguas de seu plantel para cobertura por garanhões de destaque na atualidade. Um deles é Vau da Espinho Preto, de Rancharia (SP). Duas das éguas mais prestigiadas do plantel Strang foram cobertas por esse reprodutor na última temporada: uma foi Araçatuba Bartira, de 20 anos, e a outra foi Araçatuba Fartura, ambas as matrizes da tropa original da fazenda. Que ainda tem outros nomes de destaque na raça, entre as fêmeas, como Juta, Mimosa, Baroneza, Asteca, Alvorada e Alfa.