Seleção produz vaca dócil e boa mãe
Publicado em 07/05/2008
Descendentes de Donald Strang dão sequência a trabalho iniciado por ele há 50 anos

Agora nas mãos de Celina Barbosa Strang e seus filhos, mas avessa à participação em exposições, a Fazenda Santa Terezinha II (atualmente Fazenda Tradição), em Lavínia-SP, continua voltada de corpo e alma à seleção de Nelore, seguindo à risca as regras impostas ao trabalho seletivo impostas por Donald Strang. Comprador de gado, gerente regional e diretor da Swift, ele iniciou a criação há 50 anos, entendia como poucos do que queria um frigorífico em termos de boi para abate, e por isso escreveu a cartilha que ainda hoje é o livro de cabeceira da propriedade. Características marcantes dos animais: nas fêmeas, a habilidade materna e, em todo o gado, a docilidade e ganho de peso, características selecionadas desde o início da criação. Nem dona Celina nem os filhos têm do que se queixar, os resultados estão à mostra e, mesmo sem alçar grandes vôos, a propriedade está chegando ao que quer.

A Fazenda Santa Terezinha II tem 363 hectares e constitui uma das seis partes em que foi dividida a propriedade original do velho Strang. Passou para o seu filho Eduardo, falecido em outubro de 2000, e agora tem como donos sua ex-mulher e os sete filhos do casal. Quem toca a fazenda, no seu dia-a-dia é Henrique Barbosa Strang, quartanista de medicina veterinária em Andradina, SP. Outro dos irmãos, Daniel, já formado em zootecnia, dá assistência técnica e orienta acasalamentos, e Marcelo Jake Strang, morador no Texas, EUA, acompanha tudo via internet e telefone, além de garantir algo para investimentos e melhoria.

Os pastos são de colonião e braquiária, única fonte alimentar dos animais, pois o gado com a marca Strang tem de ser rústico. Daí não se usar creep feeding, que na opinião dos donos, mascara o desenvolvimento das crias. Mesmo com a criação natural, porém, o índice de desfrute das 200 matrizes chega a invejáveis 97%, na monta natural.

Com uma população de 450 cabeças, o objetivo da propriedade é produzir tourinhos para venda a clientes cativos, que vão buscar diretamente em Lavínia os 50 disponíveis por ano, pois a Santa Terezinha II tem hoje projetos em parceria que também exigem seus animais. E está exatamente nesses acertos um dos recursos que a fazenda está usando para ampliar seus negócios, sem dispêndios que lhe compliquem o balanço anual. Todo o gado é registrado e participa do Programa de Melhoramento Genético da ABCZ-Embrapa.

Parcerias multiplicadoras - Com área pequena e sem disponibilidade de ampliá-la, a fazenda encontrou em parcerias que vem firmando com criadores de diferentes regiões a fórmula para ampliar o plantel. E foram exatamente as características que chamaram a atenção dos interessados.

Lília de Castro Consoni, de Cornélio Procópio, PR, é uma das envolvidas no projeto. Ouviu falar bem do trabalho dos Strang, viu algumas coincidências com o que tinha e resolveu conferir pessoalmente. Convenceu-se ao ver uma vaca Nelore com bezerro ao pé deixando pingar leite do úbere. E fez um rápido negócio.

Responsável pelos negócios do pai, Antônio Severo de Castro, na pecuária - ele prefere cuidar da agricultura, na Fazenda Santa Tereza - ,ela levou oito matrizes do plantel Strang para fazer transferência de embriões e fecundação in vitro na sua propriedade. Como receptoras está usando suas Nelore cara-limpa. Em troca, mandará para Lavínia metade das receptoras, que se incorporarão ao gado dos Strang. A mesma coisa vai fazer Paulo José Vilela de Carvalho, também de Cornélio Procópio, a quem Lília cedeu seis fêmeas do lote inicial de 14 que levara na parceira. Carvalho está realizando as transferências no Sítio Olho D'Água ,da GeraEmbryo, de Márcio de Oliveira Marques e Rubens César Pinto da Silva, em Nova Fátima.

O acerto com as fazendas paranaenses foi feito em novembro de 2003, mas um outro já havia sido acertado, em 2001, com Anísio César de Emílio, de Campo Grande, MS. Aqui, o contrato é difewrente: Emílio recebeu 130 vacas cara-limpa dos Strang, que utilizapara produção dos tourinhos que necessita para suas fazendas de Miranda, no Pantanal. Os machos nascidos passam a ser seus, mas mas as fêmeas são mantidas no processo, com recria para os Strang e realimentação da parceria. Não está estipulado, no acerto, até que número de vacas se pode chegar.

Em Goiás, há outra parceria, mas com vacas registradas. O acerto foi feito com Fernando da Costa, de Serranópolis, e se iniciou em janeiro de 2003. Foram enviadas 33 matrizes, e Fernando ficará com 40% da produção de machos e fêmeas. Os 60% restantes virão para Lavínia, mas parte pode continuar com Fernando, mediante pagamento do custeio com base na arroba do boi gordo, caso em que os animais entrarão novamente no ciclo previsto. A expectativa é chegar a 100 vacas no sistema e depois reestudar o acordo. A Santa Terezinha II estuda vender os machos em Goiás mesmo, em acerto a ser feito na ocasião, pois o próprio Fernando se encarrega de registrar os animais.

A boa base - Atualmente o plantel dos Strang tem 80% de sangue Lemgruber, buscado nas origens, com compras a Paulo Lemgruber, a que se seguiram outras à Mundo Novo, de Fernando Penteado Cardoso, ainda no tempo de Donald. O velho, com seu conhecimento e amizades, conseguiu trazer animais de várias outras fontes. Por isso, os registros da fazenda têm anotados na genealogia dos animais nomes como de Taj Mahal e Nagpur, de Hiroshi Yoshio, de Presidente Prudente, SP; Padhu e Akasamu, de Miguel Vita, na Bahia, além de Godhavary e Nagory de Rubico Carvalho, de Barretos, SP.

Nos acasalamentos de agora, Daniel Strang procura não abrir demasiado o leque de opções, para também marcar a propriedade como fonte de refrescamento de sangue em outros criatórios.

É assim que também pensa Marcelo Jake Strang, que coordena as ações da fazenda, mesmo morando há 14 anos em Gainesville, no norte do Texas. Ali, ele continua exercendo suas atividades no ferrageamento e casqueamento de cavalos, com empresa própria, auxialdo por dois empregados. O negócio lhe permite enviar recursos para a fazenda, além de também ir iniciando sua própria criação. De propriedade exclusiva, marcelo já tem 125 vacas.

Casado com Johana Renee Strang, a quem conheceu nos tempos em que frequentava rodeios, Marcelo diz que, fiel à filosofia do avô, não há razões para mudar os rumos da criação em Lavínia: entre dois animais, prefere deixar de lado o bonito, para ficar com o mais feio, "se for bom ganhador de peso e tiver boa courama, quando macho, ou ser boa de leite e dócil, quando fêmea", exatamente como fazia Donald Strang.

Para a docilidade do gado, reconhecida por todos os que visitam a Santa Terezinha II, Marcelo arrisca uma explicação, além do trabalho seletivo desde o nascimento, as crias convivem com a tropa de Mangalarga Marchador, que a fazenda também seleciona, e são submetidas a um manejo tranquilo e sem atropelos.

Fonte: Revista DBO Rural (abril 2004); Por: J. M. Nogueira de Campos
 
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